— Foi por um triz que passou na entrada — comentou Miguel, que tivera de escancarar algumas portas e ajudar nas manobras dentro do edifício para que a gigantesca tela pudesse chegar à sala vazia, preparada para a receber.
O imenso pano cru, pregado numa estrutura de madeira que o enforma, onde se tentará pintar qualquer coisa, se for um presépio e uma árvore de Natal ainda melhor, jaz sobre o chão protegido por completo com um plástico cortado a abastada medida para nada sujar. Espera que o maculem de irreverência com todas as cores do mundo e da vida, prometendo devolver a beleza escondida onde o quiserem expor.
A Dra. Elisabete entregou a lista de todos os utentes a Cristina, que a passou a Bruna, para que fosse ela a controlar e a assegurar-se de que todos, sem exceção, ali deixassem a sua marca. São oitenta pessoas, oitenta momentos, oitenta cores que, mesmo repetidas, terão oitenta formas e oitenta tamanhos diferentes.
Onde a Terra Guarda o Tempo
Alguém o foi chamar à pressa. Não havia carro em Combadinha, o Alberto tinha ido fazer algum frete porque já tinham lá ido bater à porta e ninguém respondera, o inconfundível carro preto e verde também ali não estava, a aflição era grande. Só o senhor prior para valer numa emergência.
Enquanto a mão da Assunção do Figueiredo segurava uma sachola com que batia a levada para tapar os buracos das toupeiras, já depois de ter cortado a água na bifurcação de um rego, as filhas brincavam às escondidas por ali, num pedaço de terra com várias oliveiras.
A Ermelinda, traquina como todas as crianças de seis anos, tinha subido a uma oliveira para se ocultar da irmã. Escondera-se numa pernada mais frágil, segurando-se nos ramos finos de outro trancalho. A irmã Aurora, que estava prestes a dar com ela, assustou-se com o rumor estranho e seco perto de si.
No seu novo Carocha preto, que trocara pelo DKV e um pequeno punhado de notas, o Padre Tobias rola a toda a pressa para o hospital que dali dista uns quilómetros.
O Naufrágio dos Vivos
Foi nesse aperto que os dois homens esbarraram.
Não houve estrondo, só o embate seco de dois ombros vindos de séculos diferentes. Camões desviara-se de uma caravana de japoneses que fotografava tudo com alegre disciplina; Pessoa seguia distraído com um cartaz publicitário que prometia «Crédito Fácil em 24 Horas».
— Desculpe — murmurou Pessoa, de cabeça baixa.
— Não faz mal — aceitou Camões, virando-se.
[...]
A esquina reteve-os por um tempo que lhes escapava. As palavras não vinham. Houve movimentos breves, sílabas abortadas. Camões ajustou a pala; Pessoa endireitou o chapéu. Ficaram presos à esquina.
Camões escrutinou o homem à sua frente: o bigode cuidado, os óculos redondos, o chapéu preto. Porém, era a postura inquieta, sempre um pouco fora do lugar, que mais o denunciava. Pessoa reparou primeiro no único olho visível. Viu a barba por fazer, as mãos duras e a fadiga de quem vira demais sem conseguir afastar a atenção.
— Conheço-o? — perguntou Pessoa, arrependendo-se de imediato.
— Não. Mas há em mim um impulso que me diz que vos devia conhecer. E vós, quem sois?
Lisboa passava-lhes ao lado. Um executivo cruzou-se com eles sem os ver. Uma criança começou a choramingar, presa à mão da mãe. Um taxista apitou ao longe, com uma fúria desproporcionada. Um autocarro da Carris chiou ao travar junto da paragem. Só eles se imobilizaram naquele ruído. Lisboa inteira prosseguiu sem reparar na impossibilidade que acabava de acontecer.
— Fernando Pessoa — apresentou-se, estendendo a mão.
Camões reparou naqueles dedos finos, nas unhas roídas, nas mãos de alguém que escrevera mais do que empunhara espada.
— Luís de Camões.
O aperto durou um pouco mais do que seria normal entre desconhecidos. Foi um cumprimento circunspecto, solene, sem sorriso largo, sem efusão. Só o reconhecimento prudente de dois homens que sabiam que o impossível poucas vezes se apresenta pedindo licença.